Este blog tem como objetivo principal o respeito da diversidade e subjetividade de cada um. Livre pensamento, liberdade de expressão é o lema defendido por nós.
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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Preciso aprender a só ser

Sabe, gente

É tanta coisa pra gente saber

O que cantar, como andar, aonde ir

O que dizer, o que calar, a quem querer

Sabe, gente

É tanta coisa que eu fico sem jeito

Sou eu sozinha e esse nó no peito

Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder

Sabe, gente

Eu sei que no fundo o problema é só da gente

É só do coração dizer não quando a mente

Tenta nos levar pra casa do sofrer

E quando escutar um samba-canção

Assim como "Eu preciso aprender a ser só"

Reagir e ouvir o coração responder:

"Eu preciso aprender a só ser"

Gilberto Gil

domingo, 19 de julho de 2009

Saudades

Nasci em uma cidade no interior de Minas Gerais, e lá residi até meus nove anos de idade. Perdi as contas de quantas vezes atravessei a rua de minha casa, adentrava pelo portão que nunca estava trancado – naquela época pouco se preocupava com ladrão – passava pelo jardim que era muito bem cuidado e que nos presenteava com a beleza de suas flores e os perfumes que encantavam e limpavam a alma de qualquer ser dotado de alguma sensibilidade.
Subia exatamente quatro degraus e me deparava com a varanda que já foi palco de tantas conversas no fim de tarde. Transitando pela casa passava pela sala, com sofás de madeira e almofadas de couro. Quantas vezes estas almofadas se transformaram em cavalos imaginários e dava asas à imaginação sedenta por aventuras própria da vida de uma criança.
A esquerda tinha o quarto do meu avô, era como se fosse um espaço proibido para crianças, “não mexa aí menina, pois, o seu avô vai brigar com você”, curiosamente era o lugar que eu mais tinha vontade de desvendar. Meu avô era como o professor Pardal. Não completou os estudos, mas era dotado de uma inteligência fora do comum.
O corredor levava a mais três quartos, dois deles destinados a receber visitas, quando estavam ocupados era uma festa, era sinal que os primos e tios haviam chegado, isso movimentava e dava muita alegria na casa. O outro quarto era o da minha avô, nele tinha um oratório imenso – hoje ele está no museu de Unaí, acho que de tanto ver a minha vó rezar, eu acabei aprendendo o mesmo, quando era pequena eu queria ser freira, eu não podia ver uma na rua que eu ficava admirada.
Todas as tardes ela estava no jardim, geralmente quando retornava da aula, quando a via lá molhando as plantas eu corria e pedia para ajudar cuidar, minha avó sempre foi uma mulher muito sábia, enquanto eu molhava as plantas ela pegava o livro sentava no alpendre, e vez ou outra me observava para ver se eu estava fazendo tudo certo, quando eu acabava ela me dava uma aula, dizendo sobre a importância das plantas, porquê devemos cuidar bem delas, que assim como nós, as plantas têm sede. Com isso minha ansiedade era grande e eu adorava brincar com água, queria molhar as plantas toda hora inclusive com o sol alto, mas minha avó me alertava, Janaína as plantas devem ser molhadas ao entardecer quando o sol já está se pondo. Eu procurava entender o porque mesmo sem entender, eu pensava, eu tenho mais sede quando estou torrando debaixo do sol, porque a plantinha não é do mesmo jeito? Mas ela sempre sabia o que dizia, um dia ela deixou eu molhar com o sol bem quente, e mandou que eu voltasse para ver depois de algum tempo, de fato as plantinhas estavam murchas, pareciam tristes.
Outra lembrança boa que tenho é das contações de história, ela sentava na cadeira de balanço, juntava aquele tanto de primos para ouvir as histórias. A mais marcante foi a do jacarezinho egoísta, ela contava de um jeito que minha mãe não sabia contar, que meu pai não sabia contar, nem meu irmão, era único, ela fazia vozes diferentes, e era possível penetrar nas histórias soltando a imaginação e aquilo me trazia uma alegria infinita.
Ela também me ensinou o dever de amar os animais e dizia enfática “Janaína, pessoas que não gostam dos bichos sejam eles quais forem, não são gente boa”, ela tinha conta no açougue para os cachorros, e era comum encontrar cachorros da vizinhança comendo em sua casa. E quando ela via um cavalo puxando uma charrete no sol quente? Era nítida a insatisfação dela “coitadinhos, devem estar com sede”.
Acho que era impossível existir uma criança que não adorava ela, não tinha uma que fosse em sua casa que não ganhasse uma bala, um bombom, ou um copo de refrigerante.
Sinto falta das pessoas que fizeram parte da minha infância e de uma forma ou outra ajudaram a formar o meu caráter.