Este blog tem como objetivo principal o respeito da diversidade e subjetividade de cada um. Livre pensamento, liberdade de expressão é o lema defendido por nós.
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Que porra é essa?

Estudante de uma faculdade federal, e com uma sólida formação crítica, me encontro atualmente enfrentando diversos dilemas, principalmente, no que tange à minha religião de até então – a espírita. Meu coração não consegue se calar, mas minha voz é muda diante de todos, amigos da doutrina me rotulam de ser uma pessoa obsediada por não conseguir ter um pensamento que vai de acordo aos princípios dos mesmos e alegam que eu me afasto do caminho porque espíritos mal feitores não querem que eu ande no caminho no bem.
Todos os meus problemas seriam resolvidos a partir do momento que eu começasse a me envolver no meio, enxergar a dor do outro de perto e perceber o quanto meus problemas são pequenos perto daqueles outros “coitados”. Restam-me duas dúvidas, será que só podemos realmente nos sentir melhores quando vemos que tem pessoas em situações pior que a minha? Será que toda a caridade feita não é nada mais nada menos que alívio egoísta e a necessidade de se sentir superior diante do próximo, claro que bem disfarçado de compaixão?
Várias pessoas já me afirmaram que sentem-se muito bem na distribuição de alimento para os famintos, entrega de brinquedos e roupas para os pobres, ou mesmo uma visita para um irmão necessitado. Eu fico feliz que consigam se sentir assim, mas eu matar a fome de alguém hoje o ajudará amanhã? Eu vestir e calçar uma criança hoje será garantia que esteja vestido amanhã? Isso verdadeiramente me incomoda. Vejo movimentos enormes que vão até Brasília na luta contra o aborto, mas eu não vejo nem mesmo movimentos locais, reivindicando melhores condições de vida naqueles bairros de assistência. É como se eu fizesse a minha parte dando migalhas para aqueles e não verdadeiramente abraçasse sua causa e fosse verdadeiramente a luta para a transformação de suas realidades.
Vejo uma sociedade embriagada em seus próprios interesses caminhando rumo à desumanização, não vejo grandes movimentos de jovens espíritas na porta da prefeitura reivindicando pela violência que é o baixo salário mínimo, a distribuição de renda injusta, os escândalos políticos e financeiros, os acidentes de trabalho, a poluição causada pelas grandes empresas, o desrespeito às pessoas consideradas frágeis e porque não dizer inferiores (deficientes, doentes mentais, pobres abaixo da linha da miséria, homossexuais, etc) por uma minoria hegemônica e rica.
Quando vejo alguém abaixo da pobreza eu também me sinto responsabilizada por aquilo, quando vejo um faminto na rua, meu coração sangra, quando vejo alguma criança cheirando cola meus ombros caem, quando vejo uma família passando necessidade eu realmente sinto vontade de doar tudo o que eu tenho, mas sei que isso não seria lúcido da minha parte, como cidadã pagante de altos impostos os governos precisam se responsabilizar pelos miseráveis e somos nós jovens que devemos cobrar.
Disseram-me, se cada um fizer a sua parte, as coisas podem melhorar “pelo menos a minha parte eu faço”. De fato acredito que seja uma afirmação verdadeira, mas eu acho que todos os esforços estão voltados para o lado errado. O fato é, o Estado tem muitas responsabilidades com as pessoas, mas, infelizmente não encontramos a caridade dos governantes em cada semáforo. 27,5% do que recebemos vão para os impostos, dentre os quais deveriam estar inclusas as verbas destinadas a habitação, alimentação, saúde, transporte e segurança para o povo.
De que forma eu poderia fazer duas vezes o papel do Estado? Além de ser lesada todos os meses com estrondosos impostos, e devo tirar do meu próprio bolso algo que já pago para que o Estado faça e ainda ser apontada como um monstro insensível que não tem dó e não ajuda os irmãozinhos mais necessitados?
Você já parou para pensar que toda essa caridade material que lhe é cobrada diariamente está incluída nas cinco fontes de impostos que você paga, e que se encontram entre os impostos mais altos do mundo? O governo além de cobrar os tributos, ainda cobra as taxas (tirar passaporte, coleta de lixo, iluminação publica, taxa de alvará), e o valor arrecadado é exorbitante.
Sempre falta dinheiro para o pagamento da dívida social, mas sempre sobra para o pagamento da dívida pública. Irônico não? O governo sempre paga o que deve aos bancos, e estes pagam a juros a quem aplica dinheiro a juros. Para os juros da dívida nunca faltou dinheiro, mas é claro, o governo não pode ficar em falta com os bancos, e estes com seus ricos aplicadores.
Os ALTOS impostos pagos pelos pobres e arrecadados pelo governo remuneram as pessoas ricas, e para variar, somente os ricos são beneficiados no posto de credores desta dívida. E ainda querem que os pobres sustentem os miseráveis.
O progresso moral vai muito além de dar esmola ou prestar assistência social. A justiça pede o cumprimento da lei e a caridade governamental está embutida, sim. Pode soar estranho, no primeiro instante falar em “caridade do governo”, mas isso significa que um misto de justiça, amor e caridade levam ao bem comum, unindo a responsabilidade social, empresarial e governamental.
É responsabilidade social, também, exercer a cidadania e cobrar dos governantes o que não é repassado aos necessitados e que se encontram embutidos em todos os impostos que pagamos! Afinal, a concentração de renda injusta explora a mão-de-obra quase escrava dos trabalhadores assalariados nesse quadro entorpecido por um regime capitalista e selvagem.
Enquanto a caridade não passar de uma reprodução e fortalecimento da ideologia dominante e determinista que os mais fortes sobressaem e que não há nada o que fazer senão dar migalhas àqueles que realmente necessitam do olhar amoroso do Estado, das empresas, e não apenas de um pequeno e seleto grupo religioso que quer seus pontos de bonança após a morte, não teremos justiça social o que para mim seria a verdadeira caridade.

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