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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Quando a Felicidade bateu na minha porta

Finalmente a Felicidade bate na minha porta, olhei desconfiada pelo olho mágico, e vi que era ela mesmo. Por alguns minutos tive receio que não fosse ela de verdade. Há rumores que muitos se disfarçam de Dona Felicidade apenas para iludir as pessoas.

Pensei comigo mesma:

- Será que é ela mesmo? E se não for?

Após alguns minutos me convenci. Era a Felicidade. Abri a porta, olhei para ela extasiada, era a coisa mais linda que meus olhos já puderam enxergar. Faltava-me palavras, mas, timidamente eu a convidei para entrar, não sabia como tratar uma visita tão honrosa, pedi que se ajeitasse no sofá e ficasse a vontade, trouxe água e um pouco de comida. Então começamos a conversar, ela me contou sobre as suas viagens pelo mundo, sobre o poder que tinha de transformar a vida das pessoas, e como essas pessoas diziam que a vida era boa por serem felizes. Imediatamente me senti inundada por aquele sentimento de alegria, eu não conseguiria descrever por meio de palavras, foi possível me sentir como se estivesse em um paraíso, não existia mais nada no mundo além de mim e aquele sentimento maravilhoso de alegria.

A campainha tocou novamente, eu relutante fui atender. Não queria de forma alguma deixar a felicidade de lado. Dessa vez para agilizar nem olhei no olho mágico, abri rapidamente, era a Razão.

A Razão é uma pessoa gente boa e sensata na maioria das vezes, mas às vezes é muito neurótica, mas sempre confiei em seu discernimento. Quando viu a felicidade sentada no sofá, ela entrou e sentou-se conosco, e perguntou sobre o que falávamos. Inteiramos-na no assunto o que a deixou um pouco incomodada, então ela perguntou à Felicidade:

- Como você pode dizer tudo isso a ela? Não sabe que essa menina é um ser humano?
Ela está viva e assim como ela tudo o que é vivo está suscetível a findar em algum momento.

Subitamente o Medo invadiu a minha sala. Engraçado como ele sempre se intromete aonde não é chamado. Gritando desesperado, ele me perguntava e afirmava em tom de autoridade:

- Menina, você não percebe que esse sentimento não durará para sempre!? A Felicidade irá se levantar deste sofá e irá embora, quando menos esperar. Não se iluda! Ela não ficará para sempre em sua casa, além disso, pode ser que daqui uns dias ela nem se lembre de quem você é, ou aonde você mora. Dizem por aí que ela é muito passageira. Sou eu, a pessoa que sempre está contigo, te guiando por teus caminhos, aconselhando-te e fazendo companhia naqueles momentos que mais precisa. Agora de uma hora para outra decide acreditar em alguém que te visitou apenas uma vez em toda a sua existência, apenas pelo fato de acreditar nos rumores que ela é capaz de transformar a vida das pessoas?

Até então, não tinha percebido que o Medo trazia consigo uma amiga que assistia todo aquele apelo com atenção e balançava a cabeça afirmativamente a cada palavra proferida, concordando com tudo aquilo que o amigo falava. Seu nome era Tristeza, ela era muito calada, não manifestou uma palavra sequer, mas, a forma como me olhava me despertava um sentimento terrível de angústia que começou a tomar meu ser e percorrer todo o meu corpo. Entretanto, certo momento, percebi que a angústia resolveu se alojar no meu coração. Senti o coração apertar, como quando se aperta uma bucha de banho para retirar o excesso de água ou quando se torce uma roupa molhada para posteriormente estendê-la no varal.

O paraíso que eu tinha experimentado vivenciar alguns minutos atrás transformou-se em inferno. Faltou cores, tudo parecia nublado. Eu não queria de forma alguma que a Felicidade fosse embora, não queria me separar dela nunca mais. Ela foi a visita mais agradável que já tinha tido o prazer de receber em minha casa. Por outro lado, eu não queria expulsar os dois invasores da minha casa. Afinal de contas por muitos e muitos anos eles sempre foram muito bem vindos. De alguma forma eu acreditava que aqueles dois só estavam tentando me ajudar.

Então comecei a acreditar nas palavras do Medo, ele tinha conseguido me convencer com seu argumento. Apesar dele ser sempre intrometido, diariamente me fazia visitas, às vezes até mais de uma no mesmo dia, estava tão acostumada com sua presença e os seus palpites! Ele tinha a liberdade de entrar em minha casa a hora que quisesse. Ás vezes eu me incomodava com a folga daquele ser dentro de minha casa, querendo me controlar, dirigir a minha vida como se fosse o dono dela. Mas eu nunca falava para ele, pois, eu acreditava que ele era um amigo que queria apenas me proteger de qualquer mal.

Não posso negar que o Medo já me ajudou em muitas situações, se não fosse seu instinto de proteção e segurança eu não estaria viva para contar. Mas percebi que muitas vezes ele exagerava, começou se tornar alguém extremamente invasivo e controlador. Suas visitas já não eram tão agradáveis, como foram nas vezes que me salvou de algum perigo. Mas eu não conseguia expulsar ele da minha casa quando estava sendo muito chato.

Agora tinha conhecido a Felicidade, e em apenas alguns minutos ela conseguiu me fazer sentir como jamais o Medo tinha conseguido. No entanto, tudo que eu conseguia lembrar neste momento eram os alertas do meu amigo, ela iria embora a qualquer momento, e seria muito penoso perder algo tão bom na minha vida – perder algo já é ruim, perder algo tão bom é assustador. Já que ela era tão passageira eu não poderia me permitir me acostumar ou esperar suas visitas. Eu devia expulsá-la rapidamente da minha vida. Mas uma coisa eu tinha em mente, eu não queria esquecer nunca mais o que senti apenas com sua presença.

Enquanto eu me perdia na vastidão dos meus pensamentos, o Medo e a Felicidade começaram a discutir, se desentenderam, e pararam de se falar. O silencio se fez no recinto.

Quando a Razão percebeu aquele silêncio ensurdecedor ela tomou a palavra:

- Eu tenho a plena consciência que eu falei que tudo está suscetível a acabar um dia, que a Felicidade é passageira e que o Medo quer apenas lhe proteger de qualquer espécie de sofrimento. Mas você acha válido se contentar apenas com a opinião do Medo, e viver sempre se protegendo, expulsar a Felicidade da sua vida, perdendo assim a oportunidade de ter o prazer de suas visitas, mesmo que elas não sejam eternas?
E continuou:

- Você percebeu que a Tristeza já tomou conta da sua casa, está deitada na sua cama neste momento? Vou lhe dar um conselho, menina. Você quer mesmo que a Felicidade faça parte de sua vida, não quer?

Eu respondi rapidamente, sem proferir uma só palavra, apenas balançando a cabeça afirmativamente. Então a razão prosseguiu:

- Trata de expulsar completamente a Tristeza da sua casa imediatamente. Comece a ser sincera quando o Medo estiver invadindo demais o seu espaço e lhe impedindo de viver, saiba que ele vai sempre estar ao seu lado para lhe proteger e alertar sobre os perigos. Isso é ótimo! Mas não em todas as situações, às vezes ele se cobra tanto para não permitir que aconteça nada de ruim a você, que ele começa a colocar idéias na sua cabeça que não permite que aconteça nada de bom também.

O medo tentou se defender, mas a razão falou rapidamente:

- Espere aí medo, todos nós sabemos que você nem mesmo foi convidado a entrar nesta casa, você já falou demais hoje, deixe a Felicidade falar um pouco também.

A Felicidade tomou fôlego e falou mais alto do que qualquer pessoa tinha dito naquela sala:

- Menina, você sabe que a vida é feita de escolhas. Eu realmente não estarei para sempre na sua sala, mas sempre que me chamar e estiver bem distante do Medo já que estamos brigados, lhe farei visitas. Não poderei ficar para sempre, mas, enquanto se lembrar de como é bom ser feliz, com a liberdade que o Medo não consegue lhe proporcionar, você conseguirá sentir a minha presença mesmo que eu esteja bem distante. Não permita que o Medo lhe controle tanto, quando tememos algo deixamos de tentar, nunca se perde nem sofre nada com isso, mas também nada se ganha. E onde não se ganha eu não posso estar, pois eu gosto de estar onde as pessoas avançam sempre. Eu sou o oposto do medo, eu sou livre, eu sou corajosa e eu gosto de arriscar, não gosto de vê-la tão presa, tão protegida. Por uma questão de pura afinidade procuro visitar aquelas corajosas que têm coragem de se lançar na vida.

E finalizou com seriedade, mas não braveza, pois ela tinha um leve sorriso no rosto:

- A escolha é sua.

Naquele momento eu entendi o que estava em jogo. Percebi o quanto o Medo estava influenciando a presença da Felicidade em minha vida. Ele me protegia de tudo, mas ao mesmo tempo me fazia perder o pouco que eu tinha: a coragem de começar tudo do zero, de se levantar de cabeça erguida a cada queda. Ele sempre me dizia que era errado me arriscar, pois, não era nada seguro.

A Felicidade me ensinou uma lição maior, é preciso enfrentar as opiniões do Medo, e entender até que ponto ele está impedindo avançar. A razão me ajudaria nesta empreitada a entender realmente quando o medo pode me ajudar e quando ele pode atrapalhar, pois ela tem sabedoria e discernimento. Durante essa tumultuada e rápida visita pude aprender que quando pouco se tem não há nada a perder. Apenas o fato de tentar já é ganho pessoal. Quando se perde algo simultaneamente já ganha outra coisa – sabedoria, experiência, coragem...

Hoje em dia eu torço para que vidas não se percam ainda em vida. Que as portas estejam sempre abertas para a Felicidade e os olhos vigilantes para que o Medo não invada a casa das pessoas sem motivo lógico e justificado. A visita da Felicidade vale qualquer risco.

Janaína Valadares Torres 28/02/09

1 comentários:

Adriano disse...

Prima, que texto violento. Fico até sem palavras.
Essa sua leitura da felicidade me comoveu bastante. Temos que apagar esse medo que temos, também nossa auto-condenação.
É isso aí prima.
Parabéns!